O algoritmo esvaziou os mandatos parlamentares

A política municipal entrou de cabeça na era da performance. Nas pequenas e médias cidades, as redes sociais virais operaram uma mudança estrutural: o vereador deixou de disputar percepção política para disputar a atenção do algoritmo.

A função do cargo, fiscalizar, propor leis e tensionar o governo, foi engolida pela lógica do engajamento. O objetivo central do mandato passou a ser somente a produção do próximo vídeo viral.

Basta olhar para a câmara municipal de qualquer cidade do interior para notar a padronização. Tornou-se difícil diferenciar quem é vereador de oposição e quem é de situação.

Os perfis parecem clones operando sob a mesma lógica. Empilhar o maior número possível de gatilhos de atenção para fazer o algoritmo trabalhar. O script é repetido à exaustão por todos os lados.

São vídeos de indignação calculada, durando de 30 a 45 segundos, focados em problemas de zeladoria barata: cobrança de capina, troca de lâmpada queimada, tapa-buracos ou acenos públicos a categorias profissionais.

Há uma canibalização permanente de conteúdos de outros políticos. O eleitor assiste a encenações de parlamentares pescando em poças d’água, saindo de dentro de matagais ou pregando placas com fotos do prefeito em locais abandonados.

E o que está ruim, pode sempre piorar. Quando o básico do algoritmo funciona e as visualizações sobem, o eixo do mandato muda. A atuação pública deixa de gravitar em torno das demandas reais da cidade e passa a servir à imagem do parlamentar.

Surgem as postagens autorreferenciais, os registros nostálgicos de “o que aprendi em dois mandatos”, as selfies incessantes e as poses performáticas embaladas por trilhas sonoras dramáticas. É a vaidade digital ocupando o espaço da construção política.

Esse narcisismo se desdobra numa busca obsessiva por controle estético da própria imagem. O debate técnico perde espaço para implantes capilares, aplicações de botox, harmonizações faciais e filtros digitais usados até a exaustão.

Presença não é construção

Existe uma confusão evidente entre presença digital contínua e relevância política real. Excesso de posts gera volume de conteúdo, mas raramente constrói autoridade técnica ou percepção sólida.

A inteligência artificial, mal utilizada na comunicação política, acelerou ainda mais esse processo ao automatizar legendas, vídeos, discursos e projetos. Criou-se uma fábrica de conteúdos previsíveis e perfis sem identidade.

E o efeito disso no eleitor mais atento costuma ser o desgaste.

A política perde contraste quando todos performam sob as mesmas regras de engajamento.

Não há perspectiva de mudança no curto prazo, porque a estrutura de recompensa das plataformas privilegia quem gera mais estímulo visual e não necessariamente quem entrega mais resultado administrativo.

Essa lógica continuará ditando o ritmo dos mandatos enquanto o algoritmo recompensar barulho acima de construção política.

E os primeiros sinais de saturação do eleitor com esse modelo já começaram a aparecer.

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes