O vídeo viraliza primeiro. A nota oficial vem muito depois. E esse atraso, além de previsível, começa a ficar constrangedor.
Enquanto o mercado usa Inteligência Artificial para prever comportamento coletivo em tempo real, boa parte das Secoms de prefeituras ainda administra crise na base do improviso. O poder público continua lento, mas a opinião pública virou um organismo que reage em velocidade algorítmica.
O ponto que muitos gestores ainda não entenderam é simples: o jogo mudou de patamar.
E não estamos falando de softwares futuristas, contratos milionários ou estruturas inacessíveis. Estamos falando de ferramentas abertas que já estão no bolso de qualquer cidadão, como ChatGPT e Gemini.
Qualquer equipe de comunicação minimamente preparada e sem preguiça consegue usar essas plataformas agora para monitorar o humor das redes e detectar uma crise antes dela explodir.
Na prática, o processo já pode ser feito em minutos.
Imagine que a prefeitura publique um post sobre transporte público. Em vez de apenas observar comentários isolados e ser pego de surpresa quando o desgaste crescer, o assessor copia as interações dos primeiros minutos e joga o material no ChatGPT ou no Gemini com um comando simples:
“Analise o tom emocional destas interações e identifique se existe um padrão de crise se formando.”
Em segundos, a IA faz o que o olho humano, cansado e enviesado, muitas vezes não consegue perceber na velocidade das redes.
Ela ignora ruídos aleatórios e identifica padrões.
Detecta aumento anormal de termos ligados a atraso, lotação, abandono ou falha operacional. Cruza recorrência de palavras, intensidade emocional e concentração temática.
O que parecia apenas reclamação dispersa começa a ganhar forma de comportamento coletivo. Antigamente, o secretário descobriria isso quando o telefone da assessoria começasse a tocar com jornalista cobrando resposta.
Agora, a tecnologia entrega o mapa do desgaste antes da indignação virar manchete.
O mesmo vale para saúde, iluminação pública, falta d’água ou segurança.
Se dezenas de moradores de bairros próximos começam a reclamar simultaneamente de lâmpadas queimadas, a IA consegue perceber a concentração temática antes que o assunto tome conta dos grupos locais.
Você não precisa de um painel da Nasa. Precisa apenas entender que comunicação pública deixou de ser distribuição de informação. Hoje ela depende de leitura de comportamento em tempo real.
E aqui está a parte mais desconfortável da discussão: o gargalo deixou de ser tecnológico. Hoje ele é cultural.
Grande parte das secretarias de comunicação ainda opera na lógica analógica de 2010:
release extenso, card institucional sem identidade, foto posada de autoridade, nota fria,
métrica vazia de curtida.
Enquanto isso, o algoritmo distribui indignação em escala.
Um vídeo de trinta segundos mostrando um posto sem médico pode gerar mais desgaste político em duas horas do que uma reportagem de TV gerava em uma semana anos atrás.
A eficácia desse modelo já não é teoria.
Autores como Inteligência Artificial para Negócios mostram como sistemas de IA já são utilizados para leitura de padrões, análise preditiva e apoio à tomada de decisão em ambientes de alta velocidade informacional.
Na mesma linha, Co-Intelligence, um livro que recomendo sobre IA aplicada ao trabalho, defende que modelos de linguagem já funcionam como copilotos capazes de acelerar análise contextual, interpretação de dados e tomada rápida de decisão.
O mercado entendeu isso rápido. O poder público, ainda não.
Enquanto o mundo avança, muitas estruturas públicas seguem tratando comunicação como setor de cerimonial ou fábrica de postagem fofa para rede social.
O resultado é sempre o mesmo: a população cobra em tempo real, e o governo responde em câmera lenta.
A Inteligência Artificial não veio para substituir assessor de imprensa. Ela veio para substituir atraso, achismo e amadorismo. Continuar ignorando isso não é apenas resistência tecnológica.
É deixar que a próxima crise seja criada, alimentada e controlada exclusivamente pelos memes da oposição.
Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes





