Muito Itabirito. Pouco Minas Gerais

O pré-candidato a deputado estadual Orlando Caldeira durante a entrevista

A entrevista concedida por Orlando Caldeira à Rádio Real FM de Ouro Preto dia (17) deveria marcar sua entrada definitiva na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2026. Com quase duas horas de duração, espaço de sobra para aprofundar ideias e uma das maiores audiências da Região dos Inconfidentes, o programa parecia o cenário ideal para que o ex-prefeito de Itabirito empolgasse o eleitorado com suas propostas para o futuro.

Mas não foi exatamente isso que aconteceu.

O principal problema da entrevista não foi a falta de conteúdo. Pelo contrário. Orlando falou sobre mineração, gestão pública, educação, moradores de rua, BR-356, pedágios, desenvolvimento regional e projetos executados durante sua passagem pela Prefeitura de Itabirito. O problema foi outro. A conversa esteve quase toda voltada para o passado.

Em vez de utilizar o espaço para apresentar uma agenda legislativa, defender bandeiras ou indicar quais projetos pretende levar para Belo Horizonte, o pré-candidato dedicou boa parte do tempo a revisitar obras, explicar decisões administrativas, justificar falhas e detalhar ações realizadas durante sua gestão como prefeito de Itabirito.

A entrevista pareceu mais uma prestação de contas de um ex-prefeito de cidade média do que a apresentação de um projeto político para um estado do porte de Minas Gerais.

Estratégia acertada, se o objetivo for retornar ao executivo de Itabirito em 2028 ou disputar uma vaga ao legislativo local.

Muito Itabirito, pouco Minas Gerais

Isso ficou muito evidente quando o debate avançou sobre temas que exigiam uma visão estratégica mais ampla.

Ao falar da crise enfrentada pelos municípios mineradores, Orlando demonstrou conhecimento sobre o setor, explicou a influência das guerras internacionais, das oscilações do dólar e da qualidade do minério na arrecadação das cidades. O diagnóstico foi detalhado. O que ficou faltando foi a prescrição.

Afinal, quais propostas pretende defender na Assembleia para ajudar municípios que hoje enfrentam queda de receitas e crescente dependência econômica da mineração?

A mesma sensação se repetiu no debate sobre a BR-356. O ex-prefeito explicou o cronograma das obras, comentou a instalação dos pedágios, falou sobre rotas alternativas e apresentou considerações técnicas sobre mobilidade e infraestrutura. No entanto, a entrevista avançou pouco na discussão política.

O ouvinte entendeu o problema, mas terminou sem compreender qual seria a atuação prática de Orlando como deputado estadual diante de um tema que afeta diretamente milhares de moradores da região.

Retrovisor como plataforma

O excesso de foco em Itabirito talvez seja o melhor resumo da entrevista.

Trevos, passarelas, o Campo do União, a rodoviária, o novo fórum e outras intervenções urbanas ocuparam uma parte significativa da conversa. São temas legítimos e importantes para o município, mas que reforçaram uma impressão difícil de ignorar. Em vários momentos, Orlando parecia falar mais como um prefeito disputando uma reeleição do que como pré-candidato a deputado estadual.

E foi justamente aí que a entrevista mostrou sua principal fragilidade.

A sensação que ficou foi a de uma entrevista mais preocupada em explicar o passado do que em apresentar o futuro. Quase duas horas depois, o ouvinte conhecia melhor as obras de Itabirito, os desafios enfrentados pela prefeitura e os bastidores da gestão municipal.

Mas ainda sabia muito pouco sobre o mandato que Orlando Caldeira pretende exercer na Assembleia Legislativa.

Para um ex-prefeito, foi uma boa prestação de contas. Para um pré-candidato a deputado estadual, ficou faltando campanha.

Ao final da entrevista, o eleitor descobriu como Orlando administrou Itabirito. Mas continuou sem saber como Orlando pretende representar Minas Gerais.

Marcelo Rebelo | Jornalista e Editor do site Mova-se Inconfidentes