Entrevista | Economista Willer Moraes analisa riscos da queda do minério para Itabirito

O economista vê o cenário econômico de 2026 em Itabirito com preocupação

A partir da análise divulgada pela Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (Amig) sobre o cenário do minério de ferro em 2026, o economista e consultor de Itabirito respondeu algumas perguntas, avaliando os impactos diretos dessa conjuntura sobre a arrecadação do municipio, além de ter se mostrado pessimista sobre o modelo de planejamento financeiro adotado pelo poder público local ainda muito dependente da CFEM.

Mova-se: A análise da AMIG sobre o minério de ferro faz sentido para a realidade de Itabirito?
Willer Moraes: Faz todo sentido e é um ponto de alerta. Ao analisarmos a LOA 2026 e o PPA, percebemos que, embora o município cite as variáveis que impactam a CFEM,  o orçamento não utiliza uma análise de sensibilidade adequada para mensurar riscos, nem possui uma reserva de contingência robusta para conter variações bruscas. O cenário é preocupante porque, enquanto a receita  pode vir a perder fôlego, a despesa fixa continua crescendo.

Sem esse “colchão” financeiro para equilibrar o fluxo de caixa, o município fica vulnerável a oscilações externas, o que acaba forçando cortes emergenciais em benefícios e serviços, como já estamos presenciando.

Mova-se: Quais são os principais fatores que influenciam diretamente essa arrecadação?
Willer Moraes:
Basicamente três variáveis: o preço médio do minério de ferro; o volume exportado que está muito ligado à demanda chinesa e o câmbio. As transações são feitas em dólar, então qualquer variação cambial impacta diretamente o valor final arrecadado.

Mova-se: Como a demanda da China entra nessa equação?
Willer Moraes:
A China é o motor do nosso volume exportado, mas o cenário geopolítico atual mudou o jogo. Além da crise no setor imobiliário chinês, Pequim está investindo pesado na diversificação de fornecedores, como no projeto Simandou, na África, para depender menos do minério brasileiro. Se a demanda chinesa cai ou se eles redirecionam as compras por estratégia geopolítica, o impacto em Itabirito é um efeito cascata: menos navios saindo, menos royalties entrando e um preço por tonelada cada vez mais pressionado.

Mova-se: E o câmbio, qual é o papel dele nesse cenário?
Willer Moraes:
O câmbio é decisivo. Quando o real está desvalorizado e o dólar mais alto, isso ajuda a compensar a queda do preço do minério, porque a exportação rende mais em reais. Mas quando o real se valoriza, por exemplo, se o dólar cai de R$ 6 para R$ 5, exportar se torna menos vantajoso, e isso pressiona ainda mais a arrecadação.

Mova-se: Esse cenário já era previsível?
Willer Moraes:
Totalmente. Desde sempre sabemos que o minério é volátil. O preço varia, a demanda varia e o câmbio varia. Isso não é novidade. O problema é a falta de planejamento econômico e de instrumentos de proteção, como um fundo estabilizador, que ajude o município a atravessar ciclos de baixa.

Mova-se: Decisões de gestão podem agravar essa situação?
Willer Moraes:
O problema é o desequilíbrio estrutural de inflar custos permanentes baseando-se em receitas que são voláteis por natureza. É um erro recorrente nos governos que passaram por Itabirito, e precisamos quebrar esse ciclo.

Em anos de bonança, houve um volume alto de desapropriações, uma reforma administrativa que encareceu a máquina e a manutenção de cerca de 500 cargos comissionados. Como esses gastos são fixos, quando a arrecadação da CFEM cai, a conta não fecha. O resultado vimos em 2025: foi preciso cortar o 13º do cartão refeição e reduzir jornadas para 6 horas para economizar no vale-refeição. Isso prova que falta um planejamento focado em criar reservas para os tempos de baixa.

Mova-se: Existe possibilidade de trabalhar com cenários diferentes para a arrecadação de 2026?
Willer Moraes:
Tecnicamente é indispensável. Precisamos de mensurar a combinação das variáveis: como o cenário onde o dólar sobe e compensa a queda do preço do minério, ou o cenário crítico onde ambos caem. O planeamento atual é linear e não simula estes comportamentos. Como temos despesas indexadas que crescem automaticamente, qualquer oscilação negativa nas variáveis globais pode desencadear uma crise fiscal. Trabalhar sem cenários de risco num orçamento tão engessado gera asfixia financeira.

Mova-se: Qual é o risco imediato para Itabirito?
Willer Moraes: Se além do preço médio em queda houver piora no câmbio ou redução da demanda chinesa, o impacto sobre a arrecadação pode ser muito mais crítico. Esse é o alerta: sem planejamento e sem diversificação econômica, qualquer oscilação externa vira um problema sério para as finanças do município.