
A comunicação pública brasileira vive um paradoxo: ela sabe que precisa mudar e entende o que deve ser feito, mas parece paralisada diante do como. Tentar adaptar os processos atuais às novas tecnologias tem se mostrado um esforço inglório. Insistir nos métodos tradicionais diante da IA é como tentar guiar um carro autônomo usando um mapa de papel. A ferramenta é poderosa, mas a mentalidade de navegação ainda é analógica.
Em meio a esse cenário de incertezas, uma voz no 2º Seminário Mineiro de Comunicação Pública, realizado nos dias 28 e 29 de abril em Belo Horizonte, apontou o caminho. A palestra da Profª. Drª. Elisa Tuler, do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, foi a mais direta e consistente do evento. Sem rodeios, ela cravou. “A inteligência artificial não é uma tendência passageira; ela veio para ficar”.
Para Tuler, a IA é uma oportunidade estratégica que já deveria fazer parte do cotidiano de todo comunicador. O diferencial do seu argumento foi desmistificar o receio da substituição: a tecnologia não exclui o humano, ela amplia a capacidade de produção e análise. Esse é o divisor de águas. Segundo ela, a IA permite potencializar a análise de dados, traduzir o “tecnicismo” para uma linguagem acessível e aproximar o cidadão do poder público. Mas Elisa foi clara. “Como qualquer ferramenta a IA, exige critério e estratégia; sem supervisão humana, vira risco”.
IA no modo offline
Apesar do norte apontado pela professora Tuler, o restante do seminário, promovido pela ABCPública no auditório da Defensoria Pública, revelou um contraste inevitável. Mesmo com um público de 120 profissionais e palestrantes de currículo elevado, a grande protagonista da era atual a inteligência artificial acabou ficando, em “modo offline”. Foi tratada como uma nota de rodapé técnica, e não como o motor central da transformação.
A ruptura provocada pela IA parece intimidar o setor. Aqueles que se aventuraram a abordar o tema o fizeram como se estivessem em um campo minado, limitando-se a temas como combate à desinformação, fake news, controle e deep fakes. Embora fundamentais, esses tópicos serviram como uma “tábua rasa” que impediu um mergulho mais profundo nas potencialidades práticas da ferramenta.
Modelo Reativo e Defasado
O evento deixou claro que a comunicação pública ainda não compreendeu a magnitude da mudança estrutural em curso. Ao negligenciar o impacto da IA no processo como um todo, o setor se mantém preso a um modelo reativo e defasado:
- Releases protocolares para a imprensa;
- Redes sociais sem vida e sem engajamento;
- Coletivas de imprensa desinteressantes;
- Inércia diante de crises e falta de capacitação técnica.
Crise de Confiança e a Proximidade
Enquanto a teoria ainda patina no básico, a realidade exige outro nível de entrega. Um dos pontos mais críticos discutidos foi a crise de confiança na informação oficial. O brasileiro médio já desconfia mais da imprensa tradicional do que de conteúdos recebidos via redes sociais e aplicativos de mensagem. Isso revela uma mudança de paradigma: a confiança migrou da autoridade da fonte para a percepção de proximidade.
A comunicação pública não sofre por falta de fóruns de discussão, mas por falta de coragem para aplicar o que se discute. É preciso “girar a chave” de um ecossistema que ainda olha para a inovação com desconfiança.
O recado está dado e estamos uma década atrasados: ou se incorpora a tecnologia com inteligência estratégica para recuperar a relevância e a proximidade com o cidadão, ou o setor continuará sendo apenas um espectador da história, ficando definitivamente pelo caminho.
Marcelo Rebelo – Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes




