Mais um projeto foi parar na gaveta.
Desta vez, o vereador Ezio Pimenta, aquele dos 70 requerimentos ignorados, reclama do veto a uma proposta sobre prevenção de enchentes. O tema é válido, mas a discussão já ultrapassou o mérito da proposta.
A questão, agora, é outra.
Alguém ainda leva a Câmara Municipal de Itabirito a sério?
Nos últimos anos, a população assistiu a um desfile de requerimentos ignorados, indicações sem resposta e projetos engavetados.
O roteiro se repete tantas vezes que virou rotina. O vereador apresenta, o prefeito ignora ou veta, os vereadores vão para as redes sociais e, no fim, nada acontece.
Enquanto o Legislativo se desgasta em reclamações estéreis, os problemas da cidade seguem exatamente onde estavam.
As enchentes continuam castigando a população. O trânsito acumula queixas. Os bairros empilham demandas reprimidas.
Na prática, a Câmara produz discursos, atas, moções e requerimentos em escala industrial, mas sua capacidade de interferir na realidade parece cada vez menor.
Esse esvaziamento político não é exclusividade de Itabirito. Em boa parte da região dos Inconfidentes, o Legislativo parece ter aceitado uma condição desconfortável: falar muito e influenciar pouco.
O poder formal continua existindo. O poder real, cada vez menos.
Quando o Executivo centraliza decisões e os vereadores se limitam a lamentar os vetos — esquecendo-se de que a própria lei lhes dá instrumentos para enfrentá-los — surge uma pergunta inevitável. Quem governa de fato?
Uma Câmara relevante não é aquela que protocola projetos. É aquela que consegue produzir consequências.
Hoje, para muitos cidadãos, a sensação é de que os vereadores discursam, viajam, fazem reuniões, gravam vídeos e publicam notas. Mas quem continua definindo os rumos da cidade é o gabinete do prefeito.
O caso do projeto sobre enchentes não escancara apenas um veto. Escancara uma relação de forças.
De um lado, um Executivo que decide. Do outro, um Legislativo que reclama.
E entre os dois, uma população que continua esperando resultados.
A verdadeira crise não está no veto.
Está na incapacidade da Câmara de transformar indignação em poder político.
Porque uma instituição que não consegue ser ouvida pelo Executivo corre o risco de deixar de ser vista como parte da solução.
E passar a ser percebida apenas como parte do custo.
Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes





