Por trás de cada pergunta feita ao ChatGPT, Gemini ou Claude existe uma infraestrutura gigantesca. E ela está no centro de um debate ambiental que ganha força em diversos países.
Nos últimos meses, a expansão dos data centers usados para inteligência artificial passou a ser alvo de críticas de pesquisadores, ambientalistas e comunidades locais, principalmente nos Estados Unidos.
O motivo é simples: essas estruturas consomem grandes quantidades de água para manter seus equipamentos resfriados.
Mas isso significa que a inteligência artificial está “secando o planeta”?
Os modelos de inteligência artificial exigem enorme capacidade de processamento. Para responder milhões de perguntas todos os dias, milhares de computadores trabalham simultaneamente, 24 horas por dia.
Toda essa atividade gera calor. Sem um sistema eficiente de refrigeração, os equipamentos simplesmente deixariam de funcionar.
Em muitos casos, os data centers utilizam água para retirar esse calor. Parte dela circula em sistemas fechados, enquanto outra é evaporada em torres de resfriamento. É justamente essa evaporação que representa o principal consumo hídrico.
O tema ganhou relevância após a publicação do estudo Making AI Less ‘Thirsty’: Uncovering and Addressing the Secret Water Footprint of AI Models, desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Riverside, e da Universidade do Texas em Arlington. A pesquisa foi uma das primeiras a estimar de forma sistemática a pegada hídrica da inteligência artificial, considerando tanto a água usada no resfriamento dos data centers quanto a consumida indiretamente na geração de energia.
O problema não é uma pergunta. São bilhões delas.
É comum encontrar nas redes sociais afirmações de que “uma pergunta ao ChatGPT gasta um copo de água”.
Embora existam estudos que tentem estimar esse consumo, a realidade é mais complicada.
O impacto de uma única consulta é pequeno. O desafio aparece quando bilhões de perguntas são feitas diariamente por usuários do mundo inteiro.
Além disso, existe outro fator importante: antes mesmo de responder aos usuários, os modelos de IA passam por um longo processo de treinamento, que pode durar semanas ou meses utilizando milhares de processadores funcionando continuamente.
A preocupação está no lugar onde esses data centers são construídos
Especialistas afirmam que a discussão não deve se concentrar apenas na quantidade de água consumida.
O principal debate é onde essa água está sendo retirada. Em regiões com abundância hídrica, o impacto tende a ser menor.
Já em estados norte-americanos sujeitos a secas frequentes, como Arizona e Texas, o crescimento acelerado dos data centers levanta dúvidas sobre a competição pelo uso da água entre empresas, agricultura e abastecimento das cidades.
Por isso, diversas comunidades passaram a exigir estudos ambientais mais detalhados antes da aprovação de novos empreendimentos.
Reportagens recentes de veículos como The Guardian e The Wall Street Journal mostram que o avanço acelerado desses projetos tem levado moradores e autoridades locais a cobrar maior transparência sobre o consumo de água e energia das empresas de tecnologia.
Por que surgiram tantas críticas?
Uma das vozes mais conhecidas nesse debate é a ambientalista Erin Brockovich.
Ela defende que empresas de tecnologia divulguem com maior transparência quanto consomem de água e energia e quais impactos esses projetos podem causar às comunidades vizinhas.
O foco das críticas não é impedir o avanço da inteligência artificial, mas garantir que seu crescimento ocorra com planejamento e responsabilidade ambiental.
As empresas também estão mudando
As gigantes da tecnologia reconhecem que o tema se tornou estratégico.
Por isso, vêm investindo em sistemas de refrigeração mais eficientes, reaproveitamento de água, uso de água de reuso e novas tecnologias capazes de reduzir o consumo hídrico.
Outra tendência é construir data centers em regiões mais frias, onde o clima ajuda naturalmente a diminuir a necessidade de refrigeração.
A inteligência artificial deve continuar crescendo rapidamente nos próximos anos.
Isso significa que a demanda por energia elétrica e por sistemas de resfriamento também continuará aumentando.
A discussão, portanto, não é se a IA consome água, ela realmente consome.
A questão é saber quanto, onde, de que forma e quais medidas serão adotadas para reduzir seus impactos.
Como aconteceu com outras grandes revoluções tecnológicas, a inteligência artificial traz enormes oportunidades. Mas também impõe novos desafios para governos, empresas e sociedade.
Entender esse equilíbrio é essencial para que o debate seja baseado em dados e não apenas em manchetes alarmistas.
Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes





