Mais seguidores. Menos amigos

​Nunca foi tão fácil falar com alguém. E talvez nunca tenha sido tão difícil criar uma amizade verdadeira.

​Uma reportagem publicada pelo jornal O Globo, com base em pesquisa da Arco Educação, trouxe um dado que deveria acender um alerta: 19% dos jovens brasileiros afirmam recorrer regularmente à inteligência artificial quando se sentem sozinhos ou precisam conversar.

​Ao mesmo tempo, 52% relatam dificuldade para fazer novos amigos. E 17% dizem sentir solidão com frequência.

​A manchete chama atenção pela presença da inteligência artificial. Mas o verdadeiro problema não é a tecnologia. O problema é a solidão.

​A IA apenas está ocupando um espaço que a nossa sociedade deixou vazio.

O paradoxo da conexão

​Durante anos ouvimos que a internet aproximaria as pessoas. De certa forma, isso aconteceu.

Hoje é possível conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta.

O paradoxo é que, enquanto a comunicação ficou mais fácil, os vínculos ficaram mais frágeis.

​Temos mais contatos. Mais seguidores. Mais grupos. ​Mas será que temos mais amigos?

​A pesquisa sugere justamente o contrário. Mais da metade dos jovens entrevistados afirma ter dificuldade para construir novas amizades.

E um dado chama ainda mais atenção: 32% sentem que as pessoas raramente ou nunca demonstram interesse pelo que eles têm a dizer.

E na Região dos Inconfidentes?

​Essa é uma discussão que precisa chegar às nossas cidades.​ Onde os jovens se encontram hoje? Onde convivem? Onde criam laços?

​Durante décadas, praças, quadras, clubes, associações e festas comunitárias funcionaram como espaços naturais de convivência. Eram ambientes que estimulavam o diálogo, a amizade e o sentimento de pertencimento.

​Hoje, boa parte dessas interações migrou para as telas. A tecnologia trouxe avanços inegáveis. Seria um erro tratá-la como vilã.

A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa para estudo, trabalho e produtividade.​ Mas existe uma diferença entre usar uma ferramenta e substituir relações  humanas por ela.

​Uma inteligência artificial responde rápido. Não exige reciprocidade. Não julga. Não se afasta. ​

Mas também não constrói amizades. Não cria vínculos. Não substitui o sentimento de pertencimento que surge quando fazemos parte de uma comunidade real.

O debate é humano

​O dado mais preocupante da pesquisa não é que jovens estejam conversando com inteligências artificiais. É que muitos deles parecem encontrar mais acolhimento em algoritmos do que em pessoas.

A pergunta principal não deveria ser por que eles usam a tecnologia e sim por que tantos estão se sentindo sozinhos?

​Quando uma geração encontra mais facilidade para ser ouvida por máquinas do que por seres humanos, o debate deixa de ser tecnológico. Passa a ser social.

​E fingir que isso é normal talvez seja o maior erro de todos.

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes