​Prefeitos na mira: TCE-MG endurece regras e amplia o risco de punição para gastos excessivos com megaeventos

O TCE foi para a ofensiva contra o uso político e desenfreado de dinheiro público em megaeventos

​Durante anos, grandes festas foram o maior símbolo de poder político em dezenas de cidades mineiras e muitos prefeitos capitalizaram com isso.

​Palcos gigantes.

Cachês milionários.

Estruturas cada vez mais caras.

E prefeituras transformadas em verdadeiras produtoras de eventos.

​Agora, o jogo virou.

O Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) partiu para a ofensiva contra o uso político e desenfreado de dinheiro público em megaeventos. E o recado veio duro, direto e sem anestesia.

​O presidente do TCE-MG, Durval Ângelo, confirmou que a Corte prepara, junto à Associação Mineira dos Municípios (AMM), uma instrução normativa que vai ditar regras rígidas, limites de valores, obrigações e proibições severas para a contratação de shows pelas prefeituras mineiras.

Vale alertar, que uma instrução normativa não funciona como conselho ou orientação pedagógica. ​Ela produz efeito processual imediato. Vira a régua oficial da fiscalização.

​Na prática, prefeitos e gestores que desrespeitarem as novas exigências vão responder na Justiça e perante os órgãos de controle. Simples assim.

​A mudança marca o fim de uma era no Tribunal.

​Durante anos, a Corte adotou uma postura de orientação técnica – o famoso “puxão de orelha” institucional. Agora, o TCE deixa claro que o tempo da conversa acabou. O foco é o enquadramento duro sobre contratos milionários ligados a festas temporárias bancadas com o suor do contribuinte.

​Nos bastidores, os prefeitos já deveriam recalcular o risco.

​Porque, durante décadas, o “pão e circo” não foi apenas entretenimento, foi utilizado como instrumento de promoção política e passou a despertar questionamentos sobre sobrepreço, prioridades orçamentárias e eficiência do gasto público.

​A irresponsabilidade bateu no muro. O próprio Tribunal já começou a travar pagamentos, passar a faca em contratos e barrar despesas antes que o dinheiro deixe os cofres públicos.

​Para que o show aconteça, a Corte vai exigir:

  • ​Pesquisa real de preços;
  • ​Comprovação de compatibilidade dos cachês com o mercado;
  • ​Rigor contratual extremo;
  • ​Justificativas técnicas para os gastos;
  • ​E a prova de que o município tem dinheiro em caixa para isso.

​A ofensiva começou após o Tribunal revelar o tamanho do rombo: as cidades mineiras empenharam cerca de R$ 940 milhões em shows e eventos festivos entre 2020 e 2024.

​Desse montante absurdo, brotaram as investigações sobre prioridade orçamentária, distorções fiscais, sobrepreço escancarado e a total incompatibilidade entre o tamanho dos eventos e a miséria da realidade financeira dos municípios.

​O debate deixou de ser cultural. ​O papo agora é responsabilidade fiscal, controle institucional e prioridade pública.

​O TCE ainda não proibiu as festas. Mas o recado emitido foi desenhado em letras garrafais. A era da festa sem freio com o dinheiro do povo entrou oficialmente na mira da guilhotina fiscal.

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes