A comunicação pública já entendeu que precisa mudar. Agora o problema é outro: transformar discurso em prática.
A inteligência artificial deixou de ser opcional, a linguagem simples deixou de ser diferencial e a relação com a imprensa, as redes e os influenciadores mudou. Tudo isso já está claro. O entrave é executar.
Nos dias 28 e 29 de abril, Belo Horizonte recebeu o 2º Seminário Mineiro de Comunicação Pública, promovido pela ABCPública, reunindo cerca de 120 profissionais para discutir os rumos da comunicação no setor público.
Se o primeiro dia expôs o problema, o segundo tentou apontar caminhos.
A linguagem simples apareceu como um dos pilares. A superintendente do Laboratório de Inovação em Governo de Minas Gerais (LAB.mg), Débora Miranda foi direta: comunicar de forma clara e acessível é garantir transparência e cidadania. O cidadão precisa entender para acessar seus direitos. Acabou o tempo do rebuscamento como barreira.
Na mesma linha, a coordenadora de mídias sociais da Defensoria Pública de Minas Gerais, Jady Caroline, reforçou que linguagem simples não é informalidade, é estratégia para se conectar com o cidadão.
Outro ponto central foi a relação com a imprensa, as redes sociais e os influenciadores. O modelo tradicional já não dá conta. O fundador da Baila Politics, Giuliano Salvarani, foi claro ao afirmar que o debate público não passa mais exclusivamente pelos veículos tradicionais. Hoje, redes, influenciadores e usuários ocupam esse espaço.
Na avaliação dele, há um risco evidente: a captura pelas métricas de vaidade. Curtidas e visualizações não podem substituir o papel central da comunicação pública, que é informar com qualidade e transparência.
A discussão avançou, mas parou onde sempre para, na execução. A comunicação pública ainda opera no modo tentativa e erro, com muita teoria e pouca aplicação. Palestras sobre gestão de crise esbarraram no mesmo ponto, falta prática. As soluções são conhecidas, o problema é colocá-las em funcionamento.
O cenário, no entanto, é ainda mais complexo. A crise de confiança na informação já está instalada. O cidadão confia menos nos jornais e mais nas redes e nos próprios grupos, e isso muda completamente a lógica da comunicação.
Sem tecnologia, nenhuma dessas estratégias escala. Linguagem simples, presença digital e relacionamento com o público dependem de ferramentas capazes de analisar, adaptar e responder em tempo real.
O seminário apontou caminhos, mas o ponto central permanece. Não é mais sobre discutir comunicação pública, é sobre executar. Quem entender isso primeiro avança. Quem não entender continua falando, sem ser ouvido.
Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do Mova-se Inconfidentes





