Voto tem consequência: o oportunismo só funciona onde a memória é curta

O roteiro se repete. Não é exceção. É método e já virou algo batido.

Vereadores que atuaram como linha auxiliar do Executivo durante os períodos de bonança agora ensaiam um novo papel. São agora críticos da gestão que ajudaram a sustentar. A mudança de postura não vem acompanhada de explicação. Vem acompanhada de conveniência.

Durante a fase de arrecadação alta, o comportamento foi outro. Projetos passaram sem resistência. Desapropriações questionáveis foram aprovadas. Obras de utilidade duvidosa receberam sinal verde. A máquina pública cresceu sem freio, alimentada por terceirizações e indicações políticas que fragilizaram o corpo técnico. Nada disso aconteceu no escuro. Houve voto. Houve discurso favorável. Houve aval.

E houve benefício. Enquanto o sistema funcionava, o apoio era automático. Cargos, influência local, entregas pontuais em redutos eleitorais. O alinhamento não era ideológico. Era operacional, um acordo silencioso. o Executivo avança, o Legislativo sustenta.

O problema começa quando esse modelo deixa de funcionar.

Quando a arrecadação cai, quando a gestão começa a falhar, quando os efeitos das decisões mal tomadas chegam na ponta, na rua esburacada, no mato alto, no poste queimado, na saúde precária, no serviço que não responde, o discurso muda. O vereador que ontem aprovava, hoje critica. O que sustentava, agora se distancia.

E aí entra a regra básica que muita gente insiste em ignorar: voto tem consequência.

Uma gestão ruim não nasce sozinha. Ela é construída e o Legislativo é parte dessa construção. Vereador que vota sistematicamente com o governo não é espectador. É coautor. O problema não está apenas no erro pontual, mas na sequência de erros chancelados ao longo do tempo.

O arrependimento, quando chega tarde, vira estratégia.

Em tempos de rede social, o político sente rápido. O desgaste não precisa de pesquisa. Ele aparece no comentário, no meme, na rua, no olhar atravessado. A reação é previsível e rápida, com reposicionamento. A dúvida também é previsível, é consciência ou cálculo?

Porque existe diferença.

Quem erra e assume, explica. Quem calcula; ajusta o discurso. E o eleitor percebe.

Voto tem consequência. Sempre teve. A diferença é que agora ela aparece mais rápido e com menos filtro. Quando a mudança de postura não vem acompanhada de memória e responsabilidade, ela soa como o que muitas vezes é: oportunismo.

E oportunismo tem prazo curto. E aqui entra a outra parte da equação, o eleitor.

Ele também carrega sua parcela de responsabilidade. É preciso aprender a conferir histórico de votações, e não apenas o discurso de ocasião. Votar exige o mínimo de tecnicidade e memória, deixando de lado o interesse imediato e a emoção passageira.

A pergunta que fica é simples, mas incômoda: quem ajudou a criar o problema pode agora cobrar solução?

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do Mova-se Inconfidentes