Levantamento em Instagrams de prefeituras mineiras, entre 1º de abril e 1º de maio, mostra um padrão recorrente.
Três realidades distintas. Um mesmo problema: a busca pelas métricas de vaidade.
Os perfis analisados variam entre cerca de 76 mil e 240 mil seguidores, com volumes mensais de 49 a 126 publicações.
Apesar da diferença de escala, o comportamento se repete: curtidas médias entre 50 e 250 e baixa participação nos comentários.
Muito post. Pouco efeito
Há casos com mais de 100 publicações em um único mês, chegando a até quatro posts por dia. O excesso cria ruído. O conteúdo passa, mas não fixa.
Volume não é eficácia. Em vez de ampliar o acesso à informação, a repetição gera “lixo visual” que o cidadão aprende a ignorar.
O que mais engaja
Eventos, entretenimento e conteúdo institucional leve concentram a atenção. São esses formatos que puxam o topo das métricas.
Em alguns casos, posts de lazer chegam a gerar até cinco vezes mais curtidas do que conteúdos de serviço, como campanhas de vacinação ou orientações de saúde.
O que deveria engajar
Informação pública essencial não mantém o mesmo padrão. Vacinação, serviços e orientações práticas aparecem, mas não mobilizam de forma consistente.
Há exceções. Conteúdos claros, diretos e ligados a situações críticas conseguem engajar. Mas não se sustentam como regra.
Engajamento não é alcance real
Perfis com bases superiores a 200 mil seguidores apresentam, em conteúdos relevantes, níveis de interação próximos de 0,1%. O número impressiona à primeira vista, mas revela baixa efetividade.
É o que se pode chamar de engajamento fantasma: a página é grande, mas a informação não se converte em participação real.
O alerta
No Seminário Mineiro de Comunicação da ABC Pública, o fundador da Baila Politics, Giuliano Salvarani, resumiu o problema.
“O debate público não passa mais exclusivamente pelos veículos tradicionais. Hoje, redes, influenciadores e usuários ocupam esse espaço.”
E fez o alerta central: a captura pelas métricas de vaidade ou o ilusionismo do like.
Curtidas e visualizações não podem substituir o papel da comunicação pública, que é informar com qualidade e transparência.
Giuliano defende que vaidade não é resultado.
“Curtida é ação passiva. Visualização não garante leitura. Alcance não garante compreensão”, afirma.
A comunicação pública não pode se orientar por indicadores de marketing. Ela exige outro critério.
ROI público
O parâmetro é o retorno social.
A informação chegou? Foi compreendida?Permitiu ação?
Se não permitiu, não houve resultado.
Outro fator reforça o problema: a padronização excessiva.
Arte repetida, linguagem previsível e uso massivo de templates tornam o conteúdo indistinto. O cidadão deixa de diferenciar o que é relevante do que é apenas mais um post.
Quando tudo parece igual, nada chama atenção.
Os dados mostram um desalinhamento claro.
O que mais engaja nem sempre é o que mais importa. E o que mais importa não consegue manter regularidade de alcance e impacto.
Se a rede social serve apenas para exibir gestão, ela deixa de informar. E passa a funcionar como propaganda.
Post viral não resolve fila. Não orienta. Não substitui serviço.
Comunicar não é aparecer. É fazer entender.





