A inteligência artificial já chegou às grandes redações. E agora?

Print de post feito em IA no Instagram do Estado de Minas

Confesso que uma postagem recente no Instagram do Estado de Minas me chamou a atenção. Não pelo assunto, nem pela posição política, mas estritamente pela imagem.

Bastaram alguns segundos de observação para perceber que havia ali uma forte intervenção de inteligência artificial. O hiper-realismo dramático, a iluminação perfeitamente desenhada na fachada da Câmara Municipal de Belo Horizonte e a estética que flerta com o cinematográfico entregam a ferramenta.

E isso é profundamente interessante por um motivo simples. Estamos falando de um dos jornais mais tradicionais e históricos de Minas Gerais usando uma imagem sintética para ilustrar um fato político real antes mesmo de ele acontecer.

Há algum tempo venho defendendo uma ideia que ainda incomoda muita gente. A inteligência artificial não é o problema. O problema é quem usa mal.

Enquanto parte do mercado e da academia ainda discute se devemos ou não utilizar a tecnologia, a discussão real já mudou de lugar. Alguns grandes veículos já tomaram sua decisão: eles estão usando e vão usar cada vez mais.

A inteligência artificial entrou definitivamente na engrenagem da produção editorial. Não apenas em pequenos portais, perfis independentes ou projetos alternativos, mas dentro das grandes redações.

Isso derruba por terra um argumento que ouvi inúmeras vezes nos últimos meses. O de que “jornalismo sério não usa IA”.

Usa. E muito. Mas deveria usar muito mais.

Mas o que mais me chamou a atenção não foi a utilização da ferramenta em si. Foi a constatação de que ela deixou de ser um diferencial.

Se até um jornal centenário utiliza inteligência artificial para construir parte da sua narrativa visual, é porque a tecnologia já se tornou comum. E quando uma tecnologia se torna comum, ela deixa de ser vantagem competitiva.

Hoje, qualquer portal, político, empresa ou criador de conteúdo consegue gerar uma imagem impactante em poucos minutos. A barreira técnica caiu. O acesso se democratizou.

Por isso, a disputa mudou de lugar. O que diferencia um veículo já não é a ferramenta que ele utiliza, mas a identidade que consegue preservar enquanto a utiliza.

No fim das contas, o post do Estado de Minas revela algo maior do que uma simples escolha estética. Ele mostra que a fase da resistência à inteligência artificial está chegando ao fim. A tecnologia já entrou na rotina das grandes redações e dificilmente sairá dela.

A discussão, portanto, não é mais sobre usar ou não usar IA.

A discussão é outra: quem continuará sendo o diferencial quando todos tiverem acesso às mesmas ferramentas?

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes