A morte do hábito de procurar notícias

O Digital News Report 2026, do Reuters Institute e da Universidade de Oxford, traz uma constatação desconfortável para jornalistas, veículos de comunicação e assessorias públicas. As pessoas continuam consumindo notícias, mas estão abandonando os lugares onde as notícias sempre estiveram.

O crescimento do consumo acontece em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube. Os sites de notícias seguem relevantes, mas já não ocupam a posição central que tiveram durante boa parte da história da internet.

Durante anos, a lógica era simples. Quem queria informação acessava um portal de notícias. O objetivo dos veículos era atrair o leitor para dentro de seu ambiente, onde encontraria reportagens, colunas, análises e publicidade.

Hoje o comportamento é outro.

As pessoas entram nas redes sociais para conversar, se divertir ou passar o tempo. A notícia aparece no percurso. Ela surge entre vídeos de humor, futebol, entretenimento, política ou comportamento. O jornalismo deixou de ser o destino da jornada e passou a disputar atenção dentro de plataformas que não controla.

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Segundo o relatório, 77% das pessoas assistem semanalmente a vídeos com conteúdo jornalístico. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o Instagram já aparece como principal porta de entrada para notícias, enquanto o TikTok continua crescendo e o X perde relevância.

O dado explica uma transformação observada por qualquer produtor de conteúdo que acompanha a evolução do ambiente digital.

Quando o Mova-se Inconfidentes surgiu, em 2016, o site era o centro da operação. Era para lá que o público se dirigia. Hoje ele exerce outra função. Tornou-se arquivo, base de consulta e repositório de conteúdo. O consumo cotidiano, a descoberta das pautas e o contato inicial com a audiência acontecem principalmente nas redes sociais.

A audiência não desapareceu. Mudou de endereço.

Foi observando esse movimento que passei a ficar atento com criadores como Johnny Harris, Cleo Abram, Vox e TLDR News. O sucesso desses projetos não está apenas na qualidade da informação produzida, mas na capacidade de transformar temas complexos em narrativas capazes de competir pela atenção em um ambiente saturado de estímulos.

Essa talvez seja uma das principais lições para a comunicação pública.

Grande parte das estruturas de comunicação institucional ainda opera com uma lógica herdada dos anos 2000. Produz-se um texto para um portal oficial, publica-se um link e presume-se que o cidadão fará o esforço de encontrá-lo. O relatório da Reuters sugere exatamente o contrário. O cidadão continua interessado em informação, mas espera recebê-la nos ambientes digitais que frequenta diariamente.

A discussão, portanto, não é sobre substituir qualidade por entretenimento. É sobre compreender que qualidade sem distribuição tem alcance limitado. Uma informação relevante que não encontra audiência produz pouco efeito público.

Por isso, o Digital News Report 2026 não deve ser lido apenas como mais uma pesquisa sobre redes sociais. Ele registra uma mudança profunda na forma como as pessoas descobrem, consomem e compartilham informação.

Quem continuar produzindo conteúdo com base nos hábitos digitais de uma década atrás provavelmente não perderá apenas audiência. Perderá relevância.

Porque o desafio contemporâneo já não é produzir informação. É conquistar atenção.

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes