​O problema não é o jornalismo. É a forma como insistimos em comunicá-lo

Recentemente, Marty Baron, ex-editor executivo do Washington Post, fez uma observação que merece atenção. Diante do crescimento de plataformas como TikTok, YouTube e Substack, ele afirmou que o grande desafio da imprensa não é apenas produzir informação de qualidade, mas encontrar uma forma diferente de comunicá-la.

A frase parece simples, mas explica uma das maiores transformações em curso no ecossistema da informação.

Durante décadas, grandes veículos dominaram sozinhos a produção e a distribuição de notícias para uma audiência concentrada. Hoje, a realidade é oposta. A atenção do público está fragmentada entre dezenas de plataformas, formatos e produtores independentes.

Muitos interpretam essa mudança como uma ameaça ao jornalismo, mas talvez estejam olhando para o problema errado. A sociedade continua precisando de informação confiável, fiscalização e contexto. O que mudou não foi a necessidade da informação, mas a forma como as pessoas a consomem. Não basta ter dados ou uma boa reportagem; é preciso conseguir chegar até as pessoas.

Força do jornalismo de nicho

Essa transformação ajuda a explicar o crescimento do jornalismo de nicho. O futuro da mídia aponta para menos estruturas gigantescas e mais projetos altamente conectados a comunidades específicas.

É aqui que o jornalismo local ganha uma vantagem competitiva que os grandes conglomerados não conseguem reproduzir.

​Enquanto os grandes veículos disputam pautas nacionais, o jornalismo local fala sobre o que impacta diretamente a rotina: a vaga na creche, a obra parada, o transporte coletivo e as decisões da Câmara Municipal.

O cidadão pode até acompanhar os acontecimentos de Brasília, mas é a decisão tomada na prefeitura que altera sua semana.

Por isso, o jornalismo local não está condenado à irrelevância, desde que compreenda que produzir informação e comunicar informação são coisas diferentes.

Vale ressaltar, que essa reflexão, inclusive, vai além da imprensa e se aplica perfeitamente à comunicação pública.

​Talvez um dos maiores desafios das prefeituras e órgãos institucionais atualmente seja a incapacidade de adaptar sua linguagem ao ambiente digital. Na teoria, as ferramentas nunca foram tão poderosas para falar diretamente com o cidadão. Na prática, muitas redes sociais governamentais se transformaram em álbuns de fotos oficiais. São sequências intermináveis de reuniões, posses e eventos protocolares.

Há informação, mas não há comunicação

O cidadão não quer apenas saber que uma reunião aconteceu; ele quer entender por que ela importa. Não quer ver a foto de uma obra; quer saber quanto custa e quando fica pronta.

Enquanto as estruturas públicas produzem conteúdo para registrar ações administrativas, a população busca significado e relevância.

A boa comunicação pública não é propaganda, tampouco entretenimento vazio. Ela é uma ferramenta de tradução: transformar políticas complexas, números e projetos em impactos concretos na vida das pessoas.

No fundo, a provocação de Marty Baron vale para jornalistas, gestores públicos e comunicadores. O problema não é a informação, mas o fato de insistirmos em comunicar o século XXI com formatos e estratégias do século passado.

Quem compreender isso primeiro não apenas sobreviverá às transformações da era digital, mas conquistará o ativo mais valioso da atualidade. A capacidade de ser ouvido.

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes