Milhões no asfalto. E os buracos continuam. Por quê?

Você já se perguntou por que o asfalto da sua cidade parece durar tão pouco?

A pergunta se repete todos os anos, especialmente quando chegam as primeiras chuvas. Não faltam anúncios de recapeamentos, manutenções e grandes intervenções urbanas. Milhões de reais são investidos, máquinas ocupam as ruas e as obras ganham espaço nas redes sociais. Ainda assim, pouco tempo depois, os buracos reaparecem como se nada tivesse sido feito.

Se o investimento é milionário, por que o problema continua? A resposta não está na chuva, mas em uma engrenagem que repete os mesmos erros de gestão. Especialistas e relatórios dos tribunais de contas apontam três fatores principais:

  • O imediatismo do “banho de asfalto”: Soluções definitivas exigem trocar a base da via e fazer obras profundas, o que é caro e demorado. Para a política tradicional, o “tapa-buraco” ou o recapeamento fino são mais atraentes: são rápidos, cobrem a rua inteira antes das eleições e rendem fotos. Tratam a estética, mas ignoram a estrutura.

  • A falta de escoamento da água: O asfalto destrói pela água que se acumula embaixo dele, e não pela que cai por cima. Cidades que asfaltam sem investir em bueiros e galerias jogam dinheiro fora. Sem vazão correta, a água infiltra, amolece a terra sob a pista e o peso dos veículos esmaga a capa asfáltica.

  • Fiscalização frágil dos contratos: Licitações pelo menor preço muitas vezes empurram materiais inferiores ou camadas mais finas do que o necessário. Como as prefeituras raramente têm técnicos suficientes ou laboratórios para testar a qualidade do material que a empreiteira joga na rua, o município aceita e paga por um serviço ruim.

Quando uma rua recém-recapeada apresenta defeitos em poucos meses e a mesma solução precisa ser aplicada sucessivamente no mesmo lugar, fica claro o diagnóstico.

A prefeitura precisa explicar os critérios técnicos e os vereadores precisam fiscalizar os contratos. Afinal, o cidadão não avalia relatórios nem discursos. Ele avalia a rua por onde passa todos os dias. E o que ele vê hoje é um ciclo vicioso: a obra acontece, o dinheiro some, o problema volta e a promessa de solução definitiva fica para o próximo ano.

O buraco no asfalto, no fim das contas, é apenas a parte visível de um problema muito mais profundo. O verdadeiro absurdo não é o solo ceder às chuvas, mas a facilidade com que a gestão pública se acostumou com o desperdício.

Enquanto o cidadão continuar pagando duas, três vezes pela mesma obra sem exigir respostas definitivas, o asfalto continuará derretendo e o dinheiro dos nossos impostos também.

Marcelo Rebelo | Jornalista e editor do site Mova-se Inconfidentes